Pronunciamento marcou o Dia Nacional e Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho e reforçou ações do Abril Verde e do Movida no município
O Fórum de Entidades Sindicais de Trabalhadores de Brusque e Região utilizou, nesta quinta-feira, 30 de abril, o espaço da Tribuna Popular da Câmara de Vereadores de Brusque para reforçar a importância da saúde e da segurança nos ambientes de trabalho.
A participação marcou o Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, lembrado em 28 de abril, data que também é reconhecida mundialmente como o Dia de Segurança e Saúde no Trabalho, instituído pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O pronunciamento foi realizado pela dirigente sindical Marli Leandro, presidente do Sintrivest, que falou em nome do Fórum Sindical, destacando a mobilização das entidades da região em conjunto com o Movimento em Defesa da Vida, Saúde e Segurança da Classe Trabalhadora (MOVIDA), que promove ações em diversos municípios catarinenses.
Durante a sessão, dirigentes sindicais de entidades que integram o Fórum também acompanharam o pronunciamento e reforçaram a mobilização com uma faixa em defesa da vida e da segurança da classe trabalhadora.
Em sua fala, Marli destacou que a data precisa ir além da lembrança simbólica e provocar reflexão sobre a realidade enfrentada diariamente por trabalhadores e trabalhadoras.
“Quando falamos em acidentes de trabalho, não estamos falando apenas de números. Estamos falando de vidas interrompidas, de famílias impactadas e de histórias que não tiveram continuidade”, afirmou.
Os dados apresentados reforçam a gravidade do cenário. Em 2025, Santa Catarina registrou 39 mil acidentes de trabalho e 170 mortes. Em Brusque, foram contabilizadas 880 comunicações de acidentes de trabalho (CAT).
“São 170 trabalhadores e trabalhadoras que não voltaram para casa. Cada número representa uma ausência que permanece”, destacou.
A dirigente também chamou atenção para as doenças ocupacionais, que muitas vezes não aparecem de forma imediata, mas deixam marcas profundas na vida de quem trabalha.
“Muitos adoecimentos acontecem no silêncio dos anos, no desgaste diário, no esforço repetitivo e no esgotamento físico e mental”, pontuou.
Durante o pronunciamento, Marli defendeu a necessidade de avançar em medidas que garantam melhores condições de trabalho, incluindo a revisão da jornada.
“É urgente discutir o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução de salário. É uma medida de proteção à saúde do trabalhador”, afirmou.
A mobilização integra as ações do Abril Verde em Brusque, campanha instituída pela Lei Ordinária nº 3.943/2015, proposta por Marli Leandro e por José Isaías Vechi, quando exerceram o mandato de vereadores, e que prevê ações de conscientização e prevenção ao longo do mês de abril.
Entre as iniciativas realizadas neste ano pelo Fórum Sindical estão a instalação de outdoors pela cidade e a distribuição de materiais informativos na Praça Barão de Schneeburg e no Terminal Urbano, com orientações sobre saúde e segurança no trabalho.
Ao final, a dirigente reforçou o papel do poder público e da sociedade na construção de ambientes de trabalho mais seguros.
“Trabalhar não pode significar adoecer. Produzir não pode significar morrer. Pela memória dos que se foram e pela saúde dos que aqui estão, finalizo dizendo: trabalho sim, mas com vida e dignidade”, concluiu.
Leia o discurso na íntegra:
Excelentíssimo Senhor Presidente, Jean Dalmolin
Senhores vereadores,
Senhora vereadora,
Estimados, cidadãos e cidadãs de BRUSQUE
Quero agradecer o espaço concedido nesta Casa Legislativa, e justificar a ausência do coordenador do Fórum Sindical, Joci Luiz de Souza, por questões de saúde.
Venho a esta tribuna hoje para falar em nome do Movimento em Defesa da Saúde, Segurança e Qualidade de Vida da Classe Trabalhadora Catarinense (MOVIDA), do FÓRUM DE ENTIDADES SINDICAIS DE TRABALHADORES DE BRUSQUE E REGIÃO – FÓRUM SINDICAL, e também como uma cidadã que acredita que a vida humana é o bem mais precioso que há neste mundo.
No dia 28 de abril, última terça-feira, lembramos das vítimas de acidentes e doenças do trabalho. Uma data mundialmente reconhecida, e que aqui em Brusque, inclusive, integra a Lei Ordinária nº 3.943/2015, que instituiu a campanha “Abril Verde”, colocando o mês de abril no calendário oficial de datas e eventos do município e prevendo, de forma expressa, a atuação e o apoio dos Poderes Executivo e Legislativo em ações voltadas à conscientização, prevenção e promoção da saúde e segurança no trabalho, em parceria com entidades da sociedade civil organizada.
Mas, para além das datas oficiais, precisamos falar do que acontece quando o relógio-ponto bate pela última vez de forma trágica.
Dizemos com frequência que Santa Catarina é um estado de gente que trabalha. Mas os dados de 2025 nos dão um soco no estômago: formalmente, apenas no nosso Estado, foram contabilizados 39 mil acidentes de trabalho e 170 mortes trágicas no ambiente de trabalho. Repito: foram 170 trabalhadores e trabalhadoras que morreram no exercício do seu trabalho e que não voltaram para casa. E quem lembra ou ainda chora por essas vítimas? E quem estima o prejuízo imensurável que todas essas vidas perdidas representam ao capital e à sociedade? E quem hoje se preocupa com as famílias, órfãos desses trabalhadores e trabalhadoras? Será que há pão em suas mãos?
O município de Brusque, também contribui com essa triste estatística. Em 2025 foram registradas 880 comunicações de acidentes de trabalho (CAT).
Um dado alarmante, porque os acidentes de trabalho trazem sequelas na vida de trabalhadores e trabalhadoras, muitas vezes, irreversíveis.
E quando falamos em “170 vítimas fatais” em Santa Catarina, a estatística esconde nomes. Esconde o pai que não voltou para ver o dever de casa do filho. Esconde a mãe que não deu o beijo de boa noite. Esconde o jovem cheio de sonhos que teve sua trajetória interrompida por uma falha de segurança ou por uma exaustão que o corpo não aguentou. Cada número desse, é uma saudade que não passa. Cada acidente é uma ferida social que o capital ignora em nome da produção e da acumulação de riquezas materiais. E tudo isso nos faz compreender que diante dos olhares do capital e da insensibilidade do espírito neoliberal, somos todos descartáveis… Valemos menos do que as máquinas e os bens que criamos! Lamentavelmente, em meio a essa inversão de valores, a criatura passa a valer muito mais do que o seu próprio criador.
Há também de se lembrar que, muitas vezes, o acidente não acontece de forma súbita, no estalo de uma máquina. Ele acontece no silêncio dos anos.
É a doença ocupacional que chega de mansinho: o esforço repetitivo que trava as mãos de uma costureira, a poeira que cansa os pulmões, o esgotamento mental que apaga o brilho nos olhos de quem antes amava o que fazia. Precisamos humanizar nosso olhar para essas “vítimas invisíveis” que, embora não apareçam nas manchetes de jornais e sites, carregam no corpo as marcas de um sistema voraz, que prioriza a entrega do produto, em detrimento da saúde de quem o produz.
Não podemos falar em saúde e segurança, sem encarar de frente a exaustão que adoece nossas famílias. É urgente que este Parlamento e a sociedade discutam e se posicionem a favor do fim da escala 6×1. Manter um trabalhador sob a pressão de seis dias de labuta para apenas um de descanso, é condenar o ser humano ao esgotamento físico e mental, privando-o do convívio familiar, do lazer e do direito básico ao repouso. Mais do que isso, é preciso defendermos a redução da jornada para 40 horas semanais sem redução de salário, não como um privilégio para a classe trabalhadora, mas como uma medida de prevenção contra o burnout e os acidentes causados pela fadiga crônica. Afinal, uma sociedade moderna e produtiva, deve ser medida pela qualidade de vida de seu povo, e não pela quantidade de horas que ele se sacrifica em uma jornada que sufoca a sua existência.
Senhores Vereadores, senhora vereadora. Esta Câmara é o lugar da lei, mas também deve ser o lugar da sensibilidade. Peço que, ao legislarem e fiscalizarem, pensem na fragilidade da vida humana. Não estamos aqui pedindo favores, estamos clamando por um pacto de humanidade. Que o lucro nunca seja maior que o luto e que o crescimento econômico de nossa cidade seja medido, também, pelo índice de felicidade e segurança de seu povo. Afinal, trabalhar não pode significar adoecer. Produzir não pode significar morrer!
O FÓRUM SINDICAL e o MOVIDA estão aqui hoje para estender a mão a este Parlamento. Queremos que esta Casa seja o eco dessa conscientização. Defender a saúde do trabalhador e da trabalhadora é defender a economia, é defender as famílias brusquenses, as famílias brasileiras, é defender o nosso futuro e a nossa vida.
Neste mês de abril, nossa homenagem mais sincera às vítimas de acidente de trabalho não é apenas o silêncio. É a nossa voz. É exigir ambientes laborais humanos. É lutar por prevenção real.
Termino pedindo a cada um de vocês: que ao olharem para as empresas e indústrias de nossa cidade e região, vejam pessoas que muitas vezes sofrem. Vejam sonhos, muitas vezes interrompidos. Vejam vidas, humanas, que merecem voltar para casa em segurança todos os dias.
Pela memória dos que se foram e pela saúde dos que aqui estão, finalizo dizendo: trabalho sim, mas com vida e dignidade!